Danielle Fernandes – Ayurveda, Psicoterapia e Neurociência
Na filosofia aristotélica, a realidade é compreendida por meio de dois princípios fundamentais: potência e ato. Entender essa distinção é também lançar luz sobre o processo de amadurecimento humano, de autoconhecimento e de transformação interior. Esses conceitos atravessam a metafísica, a ética e o próprio modo como olhamos para a vida: o que somos, o que podemos ser e o que escolhemos nos tornar.
Potência é tudo aquilo que algo, ou alguém, pode vir a ser. Representa a possibilidade de mudança, de crescimento, de atualização de uma capacidade ainda latente. Já ato é aquilo que já está realizado, o que é no presente.
Ato é o ser em sua concretude. Potência é a promessa; ato é o cumprimento.
Uma pedra bruta, por exemplo, é em ato uma pedra, já existe como tal. Mas em potência, ela pode ser escultura. Pode carregar, em seu interior, a forma de um anjo, de um corpo, de uma imagem ainda invisível. Isso depende da ação que revela o que já está em potência.
Outro exemplo clássico é o da semente. Uma semente de macieira é, em ato, uma semente, com suas formas e limites. Mas em potência, ela pode se tornar uma árvore frondosa, gerar frutos, abrigar pássaros. Desde que encontre solo fértil, luz, água, cuidado. A árvore, por sua vez, é também potência: pode ser mesa, pode ser papel, pode ser abrigo. Em tudo há movimento, atualização, novas formas de ser.
Assim também somos nós: seres com forma atual, mas com camadas interiores ainda não manifestas.
Nós já somos. Somos presença, história, afetos, virtudes e limites. Mas também somos potência: carregamos a possibilidade real de transformação, de aprendizado, de refinamento do caráter, de crescimento interior. Somos continuamente convidados a nos tornarmos aquilo que ainda não somos, mas que podemos ser.
Cultivar nossas potências é caminhar rumo à plenitude. É permitir que, pouco a pouco, a pedra bruta ceda espaço à forma mais bela e verdadeira que carregamos em silêncio. É um processo que exige paciência, consciência e liberdade. Nem toda mudança é evolução, só se transforma verdadeiramente quem escolhe se orientar pela verdade, pelo bem e pelas virtudes.
Para São Tomás de Aquino, grande teólogo e filósofo cristão do século XIII, Deus é aquilo que ele chama de Ato Puro: o ser que já é plenamente, que não possui potência, porque não tem nada a realizar além do que já é. Deus é perfeição absoluta, imutável e eterna. Nós, criaturas, ao contrário, estamos sempre em movimento. Vivemos entre o que somos e o que podemos nos tornar. Somos obras em processo, em escultura contínua.
A escultura, é uma metáfora que expressa com delicadeza esse dinamismo entre potência e ato. Michelangelo Buonarroti, um dos maiores artistas do Renascimento, teria dito certa vez:
“Vi um anjo no mármore e esculpi até libertá-lo.”
Esse gesto de ver a forma ainda não revelada e trabalhar com firmeza, mas com reverência, até que ela se manifeste, representa com perfeição o processo interior de quem busca amadurecer com integridade.
Cada escolha, cada gesto consciente, cada prática de virtude, é um golpe delicado de cinzel sobre a matéria bruta que nos habita. Não para negar o que já somos, mas para revelar o que ainda podemos ser.
Que também nós sigamos esculpindo o melhor em nós mesmos, com lucidez, sensibilidade e compromisso com o bem.
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